5. O SEQÜESTRO DO EMBAIXADOR DA SUÍÇA
Lamarca encontrou a VPR em situação caótica, em face das numerosas "quedas" de abril e de maio de 1970. Em 03 de junho, cobriu um ponto com Ariston Oliveira Lucena na Avenida Ipiranga e reassumiu a sua função de Comandante-em-Chefe, rearticulando o Comando Nacional (CN) com Inês Etienne Romeu e com o homossexual ainda não assumido Herbert Eustáquio de Carvalho, o "Daniel", que com ele estivera na área de Registro. Ao mesmo tempo, foi morar com Iara num "aparelho" do Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT). Em meados de junho, Lamarca, em reunião com Joaquim Câmara Ferreira ("Toledo"), da ALN, e Devanir José de Carvalho ("Henrique"), do MRT, estabeleceu a lista dos 40 prisioneiros que seriam trocados pelo Embaixador alemão, seqüestrado em 11 de junho de 1970. Reestruturada e com o moral fortalecido pelo sucesso alcançado no seqüestro, a VPR ingressou no 2º semestre de 1970 disposta a incrementar as ações violentas. Contudo, o seu Comandante-em-Chefe continuava enclausurado em "aparelhos" de outra organização, o diminuto mas violento MRT, por falta de uma conveniente infra-estrutura em São Paulo, até que, no início de outubro, os três membros do CN foram transferidos para o Rio de Janeiro, sendo que o casal Lamarca e Iara foi descansar, durante dois meses, numa casa alugada pelo militante Walter Ribeiro Novaes - nomeado "infra" do Comando - em Rio D'Ouro, pequeno lugarejo situado entre Piabetá e Santo Aleixo, na entrada de Imbariê, estrada Rio-Teresópolis. Com tranqüilidade, Lamarca pôde, nesses dias, escrever vários documentos teóricos de orientação à VPR e, à revelia da "frente" composta com a ALN, o PCBR, o MR-8 e o MRT, decidiu executar o seqüestro do Embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher. A ação desencadeou-se na manhã de 07 de dezembro de 1970, na Rua Conde de Baependi, uma rua estreita, de mão única, que liga o bairro de Laranjeiras ao Flamengo. Depois de bloqueado o Buick azul do Embaixador, Lamarca, de cavanhaque, terno e gravata, bateu no vidro da janela onde estava o segurança, o Agente da Polícia Federal Hélio Carvalho de Araújo. Abriu a porta e disparou dois tiros com um revólver "Smith & Wesson" calibre .38, cano longo, a uma distância de um metro: o 1º tiro atingiu o teto do carro e o 2º, as costas do Agente que, por instinto, se virara. Com a medula totalmente seccionada pelo projetil, o Agente viria a falecer três dias depois, no Hospital Miguel Couto. Consumado o seqüestro e o seu 3º assassinato, Lamarca levou o Embaixador para uma casa da Rua Tacaratu, uma ladeira que começava em Rocha Miranda e terminava em Honório Gurgel. Nessa casa, durante os 40 dias de cativeiro, junto com quatro outros militantes, Herbert Eustáquio de Carvalho, Gerson Theodoro de Oliveira, Tereza Ângelo e Alfredo Hélio Sirkis, Lamarca viu, por diversas vezes, ameaçada a sua autoridade, na polêmica sobre se matavam ou não o suíço.
Num rompante de democracia, Lamarca determinou que os militantes da VPR enviassem, por escrito, as respectivas posições. No documento de Adair Gonçalves Reis, datado de 24 de dezembro, aparece:
"Propomos a marcação imediata da data e horário para o justiçamento, com comunicado à ditadura. Prazo mínimo de 48 horas e máximo de 72 horas, tomando as 18 horas da tarde como horário básico."
Dois dias depois, Zenaide Machado afirma:
"A saída é pagar o preço alto e carregar um defunto que irá muito nos incomodar."
Ubajara Silveira Roriz ("Otávio", "Nando", "Paulo", "Salomão"), militante que já defendera a idéia de sabotar as indústrias siderúrgicas soltando milhares de ratos nas cidades próximas, propugnava:
"... fazer a ditadura levar o cadáver do embaixador atravessado na garganta, nas suas andanças pelo mundo."
Nas respostas, somente Alfredo Hélio Sirkis e José Roberto Gonçalves de Rezende não viram dividendos políticos na morte do Embaixador. Dentre os 5 militantes confinados no "aparelho" da Tacaratu, inicialmente, Sirkis ficou isolado, numa posição absolutamente minoritária. Com as respostas e o passar dos dias, Lamarca mudou a sua posição. Mesmo assim, eram cerca de 15 votos contra 3, esmagadora maioria a favor da execução. Lamarca, como comandante-em-chefe da VPR, exerceu o seu poder de veto e a sustou. Sem o saber, Bucher nunca estivera tão perto da morte como naqueles dias de Natal. À meia-noite de 13 de janeiro de 1971, 70 presos, escoltados por 3 agentes da Polícia Federal, decolavam do Galeão num Boeing da Varig, com destino a Santiago do Chile. No dia 15, um dia antes do Embaixador ser libertado, Lamarca abandonou o "aparelho" e foi matar as saudades de Iara, que viera de São Paulo.
6. A SAÍDA DA VPR E O INGRESSO NO MR-8
Se o seqüestro do Embaixador suíço proporcionou, por um lado, a libertação de 70 militantes, por outro, demonstrou ser uma "vitória de Pirro", abalando a liderança de Lamarca e iniciando o que viria a ser a desestruturação da VPR. Em 10 de janeiro de 1971, ainda no "aparelho" da Tacaratu, Lamarca redigiu o documento "Os Mesmos Problemas da Propaganda Armada", no qual, num desabafo, revela as incertezas que lhe corroíam o espírito:
"Estamos nos esvaziando, não conseguimos recuperar o terreno perdido, os companheiros no exterior estão sendo transformados em tábuas de salvação enquanto aqui não conseguimos criar condições para recebê-los, não admitimos fazer trabalho político e ficamos impossibilitados de penetrar no campo, aprofundamos o nosso isolamento político, afundando cada vez mais na marginalidade, ignoramos a história, preocupamo-nos mais com o que o MR-8 vai dizer do que significam as nossas ações, transformamos as nossas discussões em afirmação pessoal (encenações de marxismo), deturpamos tudo para demonstrar que a nossa linha é a correta quando estamos num impasse histórico, esquecemos as discussões, a maioria silencia aguardando não sabemos o que, desgastamo-nos no cri-cri-cra-cra da política burguesa, não criamos nada. A discussão é decisiva."
Dez dias depois de escrever uma "Carta Aberta a Toda a ORG", Zenaide Machado escreveu em 25 de janeiro, em parceria com Adair Gonçalves Reis, um documento no qual analisa os fenômenos existentes na esquerda, dentre os quais o voluntarismo, o espontaneísmo, o individualismo, o personalismo e a autoafirmação, concluindo:
"Toda a esquerda sofre na carne a presença destes fenômenos que têm atravancado o seu desenvolvimento. Se não vencermos o desafio que esta realidade nos impõe, se não tivermos a combatividade necessária para fazermos uma profunda autocrítica e revolução interna não passaremos do que somos hoje: um tumor dentro da realidade política brasileira."
O ponto alto das discussões, entretanto, pelo caricato que se revestiu, foi a polêmica entre Lamarca e o estranho militante de codinome "Otávio", Ubajara Silveira Roriz, o mesmo dos "ratos" e do cadáver "atravessado na garganta". Depois de escrever, em 27 de outubro de 1970, um documento sobre a moral revolucionária, Ubajara, em 19 de dezembro, redigiu o "Libelo contra os Apóstolos do Laissez-Faire ou Abaixo o Positivismo Anti-Revolucionário", usando termos nunca sonhados no hermético discurso marxista-leninista, tais como "pitecantropus erectus", "primatas", "português do bar da esquina", etc.
Foi, no entanto, a crítica aos que estavam no Comando que provocou a irritação em seus companheiros, agravada por dois novos documentos datados de 02 e 05 de janeiro, respectivamente, uma "Carta Aberta ao Comando Nacional" e um "Balanço da Situação", nos quais reputa o seqüestro do embaixador suíço como uma derrota política e disserta sobre a "volúpia do poder" e a "completa ausência de companheirismo revolucionário" que havia, no seu entender, na VPR.
Até aquele momento, o ex-Capitão não havia recebido nenhum desses documentos, pois os comandantes das Unidades de Combate (UC) e das bases estavam considerando que era melhor preservar o comandante-em-chefe da leitura das diatribes de Ubajara. O último documento, entretanto, foi recebido por Lamarca em 14 de janeiro e, dois dias depois, enviava uma "Resposta Sintética ao Companheiro Otávio", afirmando que seu balanço havia sido superficial e incompleto, caindo num "desvio ideológico". Ao final, uma advertência: "Nós devemos é ser mais sérios em nossas análises."
Em 23 de janeiro, Ubajara responde com o documento que mexeu com toda a organização, o "Quem é Carlos Lamarca ?", no qual levanta dúvidas sobre a lealdade revolucionária do "ex-capitão do Exército" e afirma estranhar o mito que se havia criado em torno do seu nome. Quase uma dezena de documentos sobre a polêmica Lamarca x "Otávio" circularam entre os militantes da VPR nesses dois primeiros meses de 1971, demonstrando a fragilidade do Comando, tendo em vista, particularmente, que tudo acabou em nada. O mês de março de 1971 ficou marcado pelas ásperas discussões travadas entre Lamarca e Inês Etienne Romeu, que redundaram no desligamento desses dois membros do triunvirato que compunha o Comando Nacional da VPR.
Em 22 de março de 1971, Lamarca, através do documento "Ao Comando da VPR", apresentou o seu "pedido de desligamento em caráter irrevogável", fundamentado por:
"1) divergir da linha política da VPR, conforme coloquei em diversos documentos internos;
2) ter constatado os desvios ideológicos da VPR e a deformação que acarreta em muitos dos seus quadros;
3) não ter conseguido levar a luta interna que iniciei há um ano com a devida serenidade;
4) não conseguir romper com o culto ao sectarismo existente na VPR;
5) discordar do método de direção (apesar de ser Cmt-em-Chefe); a Org impede a liberação de potencial, não forma quadros, aliena militantes, deforma dirigentes, elimina a criatividade, impede a prática leninista -- tudo como já coloquei em documentos internos."
Em 27 de março, logo depois de escrever o documento "Congresso: Salvação Política e Não de Honra", Lamarca, conduzido por Alex Polari de Alverga num Volks bege, foi passado para o MR-8 num "ponto" na Rua Vilela Tavares, no Méier, onde o aguardavam Carlos Alberto Vieira Muniz e Stuart Edgard Angel Jones, num Volks vermelho. Ao mesmo tempo, Iara era trazida a esse ponto por Alfredo Hélio Sirkis. Nesse final de março, Lamarca e Iara iniciavam a trajetória que os levaria à morte na Bahia. No dia 11 de abril, um recém-formado Comando Nacional Provisório (CNP) emitiu o documento "Sobre o Problema do Desligamento do Companheiro Cláudio", no qual o tachava de "personalismo", "oportunismo" e possuidor de um "idealismo ingênuo" e afirmava que essa atitude havia sido de "fuga à responsabilidade", "a partir de um profundo emocionalismo", denotando uma "fraqueza ideológica". A propósito dos numerosos documentos escritos por Lamarca, o CNP não esqueceu-se de criticá-los, afirmando que eram "somente algumas frases feitas (e ainda por cima mal feitas)" e não passavam de "mero exercício de caligrafia", referindo-se à sua escrita perfeita, redondinha, estranhamente feminina.
Ao final, o CNP concluía que não aceitava o seu desligamento enquanto que não ficassem claras as divergências e que ele não poderia "assumir militância em outra organização até a decisão final da questão". Mero exercício de retórica. Lamarca já estava no MR-8.
07. A MORTE NO SERTÃO DA BAHIA
À primeira vista, parecia que o MR-8 se fortalecia com a vinda do "Cid" ou "Cláudio", aumentando o seu prestígio junto às esquerdas. Na realidade, a organização recebia, mais do que um militante, um verdadeiro "elefante branco" e a responsabilidade de mantê-lo na absoluta clandestinidade. Para Lamarca, o ingresso no MR-8 representou, nada menos, que o início do seu fim. Carlos Lamarca e Iara Iavelberg passaram os meses de abril, maio e junho de 1971 escondidos de "aparelho" em "aparelho", dentre os quais o de Renato Perrault de Laforet ("Zé"), em Botafogo, e o de José Gomes Teixeira ("P1"). A prisão deste último, em 11 de junho, que veio a se somar a uma série de prisões de militantes e dirigentes do MR-8, precipitou a decisão de levar o casal para o sertão da Bahia, junto ao trabalho de campo na região do Médio São Francisco. Para o transporte, conseguiu-se um Volks e uma Kombi, cujos proprietários e também motoristas eram, respectivamente, Rui Berford Dias ("Aguiar") e Waldir Fiock da Silva ("Dirceu", "Pantera", "Gota Serena", "Roberto").
No início da noite de 25 de junho, os quatro encontraram-se, junto ao BOB'S da Avenida Brasil, com José Carlos de Souza, que viera especialmente para buscá-los. No Volks, seguiram Lamarca, Iara e José Carlos. Um pouco mais à frente, para verificar as barreiras policiais, a Kombi com Waldir e Rui. No dia seguinte, ao chegarem em Vitória da Conquista, Rui retornou com seu Volks e os outros quatro seguiram com a Kombi até Jequié. Depois de pernoitarem, o casal se separou: Iara e Waldir foram de ônibus para Salvador, enquanto Lamarca e José Carlos dirigiram-se para Itaberaba e Ibotirama. Ao chegarem na ponte da BR-242 sobre o Rio Paramirim, encontraram-se, no fim da tarde de 27, com José Campos Barreto, o "Zequinha". Depois de dormirem numa pensão no início da estrada que demanda a Brotas de Macaúbas, chegaram nessa cidade na tarde de 28 e, no dia seguinte, Lamarca e Zequinha foram a Buriti Cristalino, enquanto José Carlos seguia com a Kombi para Salvador, a fim de encontrar-se com Iara e Waldir. Sem o saber, Lamarca, acobertando-se como o "geólogo Cirilo", chegara em sua penúltima morada.
Na tarde de 06 de agosto, encontraram-se, no centro de Salvador, César de Queiroz Benjamin ("Menininho") e José Carlos de Souza. Como assunto principal, estabeleceram que Iara seguiria para Feira de Santana, onde havia melhores condições de segurança, e ele, José Carlos, incorporar-se-ia ao trabalho de campo, em Brotas. Há algum tempo na vigilância, policiais deram voz de prisão aos dois militantes. O "Menininho" atracou-se com os agentes, chegou a atirar e conseguiu fugir (pela 2ª vez) ao cerco, dirigindo-se para a então Guanabara. Menos feliz, José Carlos foi preso e começou a denunciar diversos companheiros.
A partir de 17 de agosto, Iara Iavelberg, agora com os novos codinomes de "Gil", "Liana" e "Leila", passou a residir no apartamento 201, do Edifício Santa Terezinha, na Rua Minas Gerais, 125, na Pituba, com Jaileno Sampaio da Silva e sua companheira Nilda Carvalho Cunha, além da irmã desta, Lúcia Bernardeth Cunha.
No dia 20 de agosto de 1971, através das declarações de José Carlos, a polícia cercou o Edifício Santa Terezinha e exigiu a rendição dos ocupantes do apartamento 201. Após terem sido presos Lúcia, Jaileno e Nilda, Iara Iavelberg foi encontrada no apartamento vizinho, o 202, onde se escondera no início do cerco. Não vendo possibilidades de fuga e assolada por bombas de gás lacrimogênio, a amante de Lamarca suicidou-se com um tiro no coração.
No dia seguinte, um sábado, às 19:00 horas, logo depois de passar um telegrama do Rio de Janeiro para Iara (sem saber que ela já estava morta), o "Menininho", num Volks com Ney Roitman, Alberto Jak Schprejer ("Souza", "Beto") e sua amante Teresa Cristina de Moura Peixoto ("Tetê"), é detido por uma "Operação Pára-Pedro", na Avenida Vieira Souto, na altura do Jardim de Alá. Ao serem solicitados os documentos, o "Menininho" saiu rapidamente do carro, fugindo correndo entre os transeuntes. Pela 3ª vez, conseguia escapar de um cerco policial. No veículo, ficaram o diário de Lamarca e cartas para Iara, escritas de 29 de junho a 16 de agosto, que forneceram, aos órgãos de segurança, a certeza de onde deveriam procurar e concentrar esforços a fim de capturá-lo.
Enquanto isso, as declarações de José Carlos de Souza ajudavam a colocar mais dirigentes do MR-8 na cadeia. Em 27 de agosto, foi a vez de Diogo Assunção de Santana e Milton Mendes Filho.
No dia seguinte, a polícia chegou em Buriti Cristalino, dando voz de prisão aos ocupantes da casa dos irmãos Campos Barreto, que reagiram com intenso tiroteio. Ao final, Olderico foi preso, ferido no rosto e na mão direita, enquanto Otoniel foi morto, quando tentava a fuga. Dentro da casa, o cadáver de Luiz Antônio Santa Bárbara, que se matara com um tiro na cabeça. Era o 3º suicídio de militantes do MR-8 para não denunciarem Lamarca que, acampado a poucos quilômetros do lugarejo de Buriti Cristalino, ouvira os tiros e fugira, internando-se com Zequinha mata a dentro.
Sem saber do acontecido e sentindo-se "queimado" no Rio de Janeiro, César de Queiroz Benjamin retornou a Salvador, sendo preso em 30 de agosto, num "ponto" delatado por Jaileno, no Rio Vermelho. Após longa série de assaltos e ter escapado de três choques com a polícia, o "terrível Menininho", com apenas 17 anos, mostrou-se extremamente dócil nos interrogatórios. Suas extensas declarações, todas de próprio punho, desvendaram a linha política e as ações do MR-8. Muitos militantes foram, então, identificados. Chegou, inclusive, a fazer uma análise dos métodos de interrogatório aplicados, declarando-se surpreso com o bom tratamento recebido e com o nível de seus interlocutores.
Com essa nova e importante fonte, os órgãos de segurança, que já haviam retirado boa parte de seus efetivos da região de Brotas de Macaúbas, retornaram ao local, iniciando-se nova caçada a Lamarca e a Zequinha.
No meio da tarde de 17 de setembro de 1971, uma equipe de agentes, integrantes da Operação Pajussara, localizou os dois militantes, que descansavam à sombra de uma árvore, perto do arruado de Pintada, município de Oliveira dos Brejinhos. À voz de prisão, tentaram sacar de suas armas. Uma série de tiros pôs fim ao ex-Capitão comunista - que deixara um rastro de sangue atrás de si - e a José Campos Barreto.
08. TRAIDOR DO EXÉRCITO BRASILEIRO
Essa é a verdadeira história de Carlos Lamarca, a qual poucos conhecem, pois sempre foi contada por só um dos lados. Mais de 28 anos após sua morte, os tempos mudaram. Os militantes comunistas que ensangüentaram o País em nome de uma revolução -- hoje, por eles mesmos vista como equivocada --, não mais matam, seqüestram ou roubam e nem mais descansam nas enxêrgas dos "aparelhos" ou da selva. Beneficiados pela anistia, seus crimes foram esquecidos. Seus atos ensandecidos foram transformados em heróicos e seus passados são avaliados pelas maiores ou menores "perseguições políticas" que, supostamente, teriam sofrido.
Em contrapartida, aqueles que lutaram contra a luta armada, ao lado da Lei e a Ordem, são tachados de torturadores, de opressores e de reacionários. Listados nos livros vermelhos elaborados por esquerdistas, são marcados durante toda a vida, ao arrepio da Justiça, pelos intolerantes derrotados.
Enquanto uns ganham homenagens, monumentos, nomes em logradouros públicos e filmes patrocinados pelo dinheiro público, outros são acusados, perseguidos, destituídos de suas funções e convocados a pseudas "comissões de inquérito".
Para os primeiros, os derrotados na luta armada, a anistia de 1979 não serviu para sepultar as idéias exacerbadas e conduzir a Nação para o caminho do entendimento mas, apenas, para conceder-lhes a liberdade de atacar seus antigos inimigos e de praticar o revanchismo. Para os segundos, a vitória na luta armada foi o estopim da derrota política e amargam um compulsivo silêncio, patrulhados pela mídia ideológica. Assim é com Carlos Lamarca.
Há mais de 16 anos, em 25 de agosto de 1983, um desses ex-terroristas, Liszt Benjamim Vieira, então Deputado Estadual pelo PT do Rio de Janeiro, pronunciou um discurso na Assembléia Legislativa, no qual fez a seguinte assertiva sobre o ex-Capitão:
"Senhor Presidente, Senhores Deputados, hoje, 25 de agosto, Dia do Soldado, queremos homenagear um herói brasileiro. (...) Cursou a Escola Militar, onde foi o primeiro aluno. Seguiu brilhante carreira militar."
Por ser "herói", sua viúva, desde 1984, recebe pensão do Exército. Por ser "herói", sua família também recebeu, por decisão da Comissão dos Desaparecidos, em 11 de Setembro de 1996, a quantia de R$ 100 mil de indenização. Na realidade, em torno de Lamarca construíram-se muitas lendas:
A lenda de que foi primeiro aluno da AMAN, opõe-se a realidade de que saiu Aspirante-a-Oficial classificado em 46º lugar numa turma de 57 cadetes;
A lenda de que era brilhante atirador, opõe-se a realidade de que nunca conseguiu, com revólver calibre .38, média maior do que 78 no tiro de precisão e, apenas, usava a sua condição de "atirador" para roubar munição e entregá-la para as organizações comunistas;
A lenda de que era um exemplar marido e chefe de família, opõe-se a realidade de que foi obrigado a se casar, ainda como cadete, por ter engravidado sua própria irmã de criação, Maria Pavan, e que a enviou para Cuba com um casal de filhos -- o menino viria a ser tenente do exército cubano -- não por temer por sua segurança, mas para desfrutar do convívio com sua já amante, Iara Iavelberg;
A lenda de que era um Oficial com brilhante carreira militar, opõe-se a realidade de que desertou do Exército Brasileiro. Ao divergir, não pediu sua saída conforme os princípios de ética e de moral que lhe foram ensinados na caserna. Usando a própria farda, roubou e traiu seu sagrado juramento de Oficial do Exército, demonstrando não possuir a lealdade que caracteriza o soldado;
A lenda de que era um herói, "libertador da Pátria", opõe-se a realidade de suas ações terroristas: assaltos a bancos, seqüestros de embaixadores, assassinatos, incentivador de guerrilhas urbana e rural, roubo de armamento e aliciador de outros militares para a causa comunista.
Insuspeitas são as opiniões de Ariston Oliveira Lucena sobre Lamarca - que com ele participou do assassinato do Tenente Mendes em Registro, publicadas em entrevista no "Jornal do Brasil" de 22 de setembro de 1988: "... era teoricamente despreparado e politicamente sem experiência ... tinha frieza e intuição ... era autoritário e não gostava de ser contrariado ..."
Também insuspeitas são as declarações de José Araújo da Nóbrega, ex-sargento do Exército e militante da VPR, que, em maio de 1970, escreveu de próprio punho:
"O Cap Lamarca não possui um QI satisfatório, à altura de ser um líder revolucionário. É um elemento de caráter volúvel, não tem posição definida, suas decisões são tomadas seguindo suas tendências emocionais. Suas qualidades militares são limitadas, tem limites de aproveitamento prático do conhecimento técnico que possui. É pouco engenhoso. O valor político que possui para ser um líder de esquerda lhe foi dado pela imprensa (interessada ou não). As suas façanhas são limitadas e são raras, todavia é elemento audacioso."
Na realidade, apesar da audácia, da lenda e do mito, Lamarca foi um desertor e um traidor do Exército Brasileiro. E é assim que deverá passar à História.
Fonte: O Irmão colaborador desta matéria prefere no momento que não seja divulgado seu nome.